
Estava ela toda de branco, com todo o seu encanto, acreditando que finalmente tinha realizado seu mais secreto plano. Encontrou o rumo pra sua vida: alguém pra se dedicar. Ele lhe daria sentido, direção, um motivo pelo qual respirar. Um motivo pelo qual sonhar. A esperança de se libertar e como se num passe de mágica, tudo fosse melhorar.
Estava ela toda de branco, em meio a seu singelo pranto, pronta para se casar. Como se esse fosse seu único destino na vida. Como se essa fosse sua única forma de voar. Voar, sonhar, libertar, melhorar, ou simplesmente dar e mais uma infinidade de verbos que rimariam pobremente sem citar o mais importante deles: amar.
Nem tão menina, nem tão mulher. Somente uma figura quase caricata em busca do que quer. Preparada para jurar na frente de tudo e de todos: sou tua e estou contigo para o que der e vier. Como se a vida fosse um folhetim. Depois de muita busca, luta, tragédias e abdicações, vem sempre um tão aplaudido fim.
Fim? Não, garçom, por favor, uma última dose de gim, diz o escolhido como se a bebedeira fosse clarear suas idéias e lhe dar a coragem de dizer SIM... E a incerteza da felicidade, a crueldade da fidelidade, a supressão de todas as suas vontades, tudo pra que ele se cumpra seu papel de salvador, um meio anjo, um serafim.
Neste grande espetáculo da vida, quase tudo rima. A igreja decorada, a festa arranjada, a família toda emperiquitada. Um carnaval. Um vendaval... da quase menina virando mulher, se dando de colher pro que der e vier. E para as favas com as vontades, ou mesmo a tal da felicidade. Seu desejo é acima do bem e do mal. Um sentimento hormonal. Doar, dar... seu corpo, sua alma, se entregar afinal.
Ganhar o mundo inteiro. Correr, querer, subverter, gemer, ganhar (ou perder?), ou simplesmente viver... uma vida de luxúria e riqueza sem freios.
E onde seu homem ficou? Bebeu, jurou, suou, trabalhou, aquietou, quase amou. Mas no final, ela tudo dele sugou. A última gota de sangue, o último delírio alucinante, arrancou de sua vida o volante, sem sequer cumprir seu papel de amante, restando somente seu gosto de purgante, tornou os dias agonizantes, aquela mulher asfixiante.
Para que? O que ela quer? Cumprir o que desde de criança aprendeu: ser mulher. A esposa ideal. Sua presença, colossal; seu humor, surreal, seu corpo, fenomenal. Impecável, insubstituível. Um ser supremo, perfeito, sem igual.
Enquanto isso, amor rima com dor, odor, fedor, um sentimento que mesmo quando nasce, está fadado e condenado a morte num teatro onde não é permitido perder o controle, nem ser passional. Ela prefere um mundo onde os sentimentos são encenados sem calor como um filme antigo esquecido no armário, largado num canto perdendo a cor.
E no final? A rima acabou. O coração parou, a vida se esgotou. E quando ela olhou pra trás, a única conclusão que chegou foi de que nunca amou. O que fez então? Pegou seu vestido branco perdido em seu embolorado descanso, vestiu-o num desesperado pranto, olho-se pela primeira vez no espelho e perdido o encanto, se matou.